ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 564 - 17/11/2009
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O voto americano visto do Brasil
Postado por Luiz Weis em 3/11/2008 às 5:54:25 PM
 
 

Na sua ampla cobertura da eleição nos Estados Unidos, a imprensa brasileira deu uma idéia de como funciona – se é que o verbo é esse – o processo de votação no país.

É um processo essencialmente voter unfriendly – já não bastasse a eleição ser indireta, uma contrafação do proclamado princípio “um homem, um voto”. São, como se sabe, 538 homens (e mulheres) os membros do colégio eleitoral que em última análise escolhem o presidente – “mais iguais”, portanto, do que os 169 milhões de eleitores do país.

O colégio eleitoral, a propósito, foi instituído pelos “pais fundadores” dos Estados Unidos, os signatários da Declaração de Independência de 1776, com a intenção assumida de contrabalançar o poder político da maioria absoluta da população com direito de voto – os homens livres não proprietários de terras.

Das regras para o registro de eleitores aos procedimentos de votação, uma coisa e outra podendo variar de estado para estado ou de distrito (county) para distrito, o sistema é um convite para ficar em casa no dia da eleição.

Ficar em casa, aliás, é modo de dizer: dia de eleição é dia de trabalho – razão por que este ano milhões de americanos, muitos deles presumivelmente eleitores de Obama, enfrentaram horas de fila no domingo nos lugares que permitem o voto antecipado. O Estado de S.Paulo da segunda-feira trouxe uma boa matéria a respeito, descrevendo a situação numa seção eleitoral de Palm Beach, na Flórida.

Os mecanismos de votação – como ficou escancarado na mesma Flórida quando da primeira eleição de George W.Bush, em 2000 – são um convite ao erro e à fraude.

”Depois de oito anos e de US$ 3 bilhões de investimentos na reforma do sistema de votação no país todo, ele ainda gera problemas”, escreveu o enviado do Estadão, Lourival Sant’Anna. “Em agosto, uma eleição para juiz do condado de Palm Beach foi tumultuada pelo sumiço de 3.500 cédulas, quando a diferença entre os dois candidatos era de 60 votos. As cédulas acabaram sendo encontradas.”

Café pequeno perto do que o New York Times noticiou na reportagem “Grande comparecimento pode acrescentar problemas nos postos de votação”.

O texto dá o que pensar no Brasil, onde se há um equipamento público de primeira necessidade que funciona impecavelmente é a urna eletrônica. Trechos:

”Milhões de eleitores encontrarão uma paisagem de baixa tecnologia nos locais de votação. Cerca da metade dos eleitores votará de forma diferente da última eleição presidencial e a maioria usará cédulas de papel em vez dos equipamentos touch screen (toque na tela) que preocupam os especialistas em votações.

”Depois do fracasso de 2000, o Congresso aprovou uma lei federal – o Ato de Ajuda ao Voto na América – para modernizar o processo de votação. Mas, de muitas maneiras, as coisas ficaram piores.

”Muitos especialistas advertem que a escassez de urnas eletrônicas ou cédulas impressas em estados-chave, além de problemas com a verificação da identidade dos eleitores, podem encompridar filas e criar tensões.

”Distritos e estados estão mais bem preparados do que no passado para lidar com problemas de equipamentos, diz Lawrence Norden, um especialista no Centro Brennan de Justiça da Faculdade de Direito da Universidade de Nova York. O problema é que esta eleição não deve ser como nenhuma outra em termos de pressão sobre o sistema, e pequenos problemas podem ter grandes consequências quando as margens são tão estreitas e quando tanta gente aparece para votar.”

O que os jornais brasileiros não fizeram – e poderiam ter feito, simplesmente ligando os pontos, como se diz nos Estados Unidos – foi chamar a atenção para o que esse sistema continua a ter de excludente.

Poderiam ter mostrado, com base em pilhas de reportagens e artigos publicados ao longo dos anos na mídia americana, que é mais fácil para um branco do que para um negro conseguir o registro de eleitor, ter o seu registro reconhecido nos postos de votação e o seu voto validado.

Antes da campanha deste ano, ou melhor, da empreitada sem precedentes do voluntariado de Obama para registrar novos eleitores, especialmente negros, os índices de “alienação eleitoral”, como se diz em ciência política, eram entre estes substancialmente maiores do que em qualquer outro grupo demográfico do país.

Também faz parte do déficit americano de democracia – tomando o conceito pela sua vertente eleitoral – o absurdo da negação do direito de voto a condenados por delitos criminais que já cumpriram as suas penas.

O que atinge especialmente a população negra.

Na ditadura de 1964, os generais defendiam para o Brasil uma “democracia relativa”. Haja relatividade na democracia eleitoral americana.

Se assim não fosse, o New York Times não teria publicado em 2004 uma série de 38 editoriais – repita-se editoriais – sob o título geral “Making Votes Count” (fazendo os votos valer). Um deles pregava a abolição do colégio eleitoral.

O colégio, denunciava o jornal, “atropela a vontade da maioria, distorce as campanhas presidenciais e tem o potencial de produzir uma verdadeira crise constitucional” – que por pouco não aconteceu quatro anos antes, quando Bush levou a Casa Branca no tapetão de uma Suprema Corte de maioria conservadora, que se recusou a autorizar a recontagem dos votos na Flórida. Ele foi o terceiro presidente a chegar lá embora derrotado no voto popular. (Bush perdeu para o democrata Al Gore por mais de 500 mil votos.)

O último editorial da série destacava que a cada eleição “milhões de eleitores aptos a votar são impedidos ilicitamente de fazê-lo e milhões de votos são jogados fora” por funcionários eleitorais malévolos ou incompetentes.

Ou ainda cúmplices dos governos estaduais interessados na fraude – nos Estados Unidos não existem tribunais eleitorais independentes, como no Brasil. No estado de Ohio, por exemplo, onde Obama e McCain disputam o voto cabeça a cabeça, um secretário estadual chegou a declarar inválidos os pedidos de inscrição eleitoral feitos em papel que não tivessem determinada espessura!

Diante dessas barreiras, uma vitória de Obama quem sabe exigirá dos jornalistas que encontrem para ela um adjetivo ainda mais forte do que “histórica”.

Comentários (9)
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Tom  Taborda, Jornalista (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 14/11/2008 às 1:36:59 AM

Salve Weis, Um outro suspeitíssimo mecanismo ´cerceante do voto´ é a Obrigatoriedade de Filiação a um Partido Político, para se obter o Registro de Eleitor nos EUA. Sempre que comento isso com um americano, ele ´esclarece´: "mas na hora do voto, vc pode votar em quem quiser". Ah bom... Para mim (com o devido desconto do exagero retórico), mais parece exigência de qqr País Totalitário, onde a ´Carteirinha do Partido´ é pressuposto indispensável em qualquer atividade cívica. Abraços,
Evalder  Almeida, Aux.adm (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 5/11/2008 às 4:12:16 PM

Estranho e muito complicado o processo eleitoral nos EUA, chegando ao ponto de um candidato ser menos votado e conseguir ser eleito, ainda bem que o resultado foi o esperado, caso contrário esvaziaria ainda mais a democraica americana que a muito é questionada! Adeus Busch, foi tarde e não deveria ter vindo, que a paz volte a reinar no mundo, e que deus ilumine o Obhama que entrará para a história como o primeiro candidato negro como também que irá restaurar a paz mundial! Parabéns pelo artigo.
Carlos N  Mendes, industriário (Santos/SP)
Enviado em 5/11/2008 às 12:30:20 PM

Luiz, tenho a dizer que estou chocado com esse - reluto em usar tal expressão - cerceamento à liberdade eleitoral nos EUA. Realmente eu não tinha conhecimento da sistemática em si. A imprensa brasileira sempre foi de loas às liberdades civis americanas, dificilmente detalhando o funcionamento do sistema. Ontem também descobri através do OI que os partidos nanicos são nanicos não porque não tenham simpatizantes, mas pela grande dificuldade de se estabelecerem em cada estado. Havia pessoas emprestando sua garagem para votação na Califórnia - de forma alguma considero isso um mérito, isso é ausência do Estado. Paulo Francis achava o máximo da civilização o dia da eleição ser um dia de trabalho comum. Para mim, fica a impressão que a elite americana desenvolveu um sistema tão perfeito para se manter no poder que dispensa a necessidade de controle sobre as eleições. É mais assustador do que meritório. Mas seja o que for hoje a democracia americana, foi ela a inspiração para as grandes revoluções políticas dos últimos 200 anos, e isso já é um grande feito.
Bruno  de Carvalho, Estudante de Jornalis (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 5/11/2008 às 8:38:17 AM

Excelente texto, como sempre, Luiz Weis. Tão mais esclarecedor que as reportagens do JN. O método de votação americano pode ser chamado de ridículo. Como um país de dito primeiro mundo, e autointitulado o inventor da democracia, pode ter absurdos como esse do secretario que só aceitava inscrições em papel de determinada espessura. Mesmo assim vimos muitos americanos comparecerem às urnas. E agora sabemos que Obama levou a presidência. Resta saber se ele será mais do que o primeiro negro a presidir a potência EUA.
Paulo Guimarães  Nunes, Motorista (IGUATU, CE/CE)
Enviado em 5/11/2008 às 4:44:20 AM

QUEM QUER SABER DE ELEIÇÕES NOS ESTADOS UNIDOS ???? O que interessa isso pra maioria da população que vê o Jornal Nacional, afinal, ninguém vai pra lá... A gente mora é no Brasil, pô!!! Acho um absurdo o DESTAQUE anormal que se dá a uma eleição que não muda em nada a nossa vida cotidiana.
marcos  omag, auxiliar judiciário (são paulo/SP)
Enviado em 5/11/2008 às 12:55:32 AM

Muito bom o seu texto, Luís Weiss!Não gostei apenas da exagerada exaltação da urna eletrônica brasileira. As eleições no Brasil têm um problema básico:o voto é virtual. Portanto, fica impossível a recontagem de votos que não existem na realidade. Além disso, o software usado na urna não é totalmente auditável pelos partidos. O TSE mudou para um programa de padrão aberto, mas algumas linhas de código ainda não são disponíveis para os partidos.Faltou também você escrever que a Direita no Brasil, principalmente o PSDB e o DEM,querem importar o malfadado pacote eleitoral estadunidense para o nosso Brasil.Voto facultativo, burocratização da inscrição eleitoral, voto distrital puro e outras traquinagens visando afastar o povão do processo eleitoral são ítens da Reforma Política dos sonhos do PSDB. Na Constituinte do 1988, o então Senador Marco Maciel, do PFL, tentou estender os maléficos efeitos do Pacote de Abril para as eleições presidenciais ao propor uma "média comparada" que acabaria com o princípio "um homem, um voto" na eleição para Presidente da República. Jornalistas de Direita, como o Bóris Casoy e Alexandre Garcia vivem elogiando o sistema estadunidense de eleições. É preciso olho vivo com essa turma.
Lucas  Nery, Estudante (Madrid/IN)
Enviado em 4/11/2008 às 10:39:47 PM

Além de 2000, qd. Bush foi flaglorosamente derrotado por Al Gore por mais de meio milhao de votos, se nao me engano, em 2004, ele e Jonh Kerry (candidato democrata na ocasiao) tiveram empate técnico nas ruas. Nao lembro dos números, parece que Kerry venceu por pequena margem. Na 1ª eleiçao o pivô da crise na contagem dos votos foi o Colégio da Flórida, enquanto em 2004, quem por último confirmos os resultados foi justamente Ohio, lembrado aqui neste artigo.
Angela  de Barros Emery Trindade, Professora/Advogada (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 4/11/2008 às 7:15:19 PM

Completando o comentário do Sr. Ronaldo, eu ouvi no noticiário q. várias cédulas foram inutilizadas pois as pessoas q. trabalham nesses colégios eleitorais não entendiam para quem iria o voto de alguns votantes! As pessoas passavam horas numa fila q. parecia interminável. Pelo menos nesse aspecto, estamos na frente dos Estados Unidos.
Ronaldo  Santana, Empresário (Campinas/SP)
Enviado em 4/11/2008 às 10:56:52 AM

Lendo este texto e outros sobre a eleição americana, podemos perceber que: o Brasil é primeiro mundo, ao menos, em organizar e apurar as eleições. Depois da confusão da eleição de 2000 que foi decidida em juízo, os americanos vieram ao BRA para aprender sobre a nossa urna. No final, copiaram mal. Ontem saiu no jornal da globo que a urna americana (touch screen) é ruim: se aperta um candidato e o sistema seleciona o outro. O eleitor acaba erroneamente confirmando o voto para o adversário. Custava menos se tivesse posto botões na máquina.
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Luiz Weis
Jornalista, pós-graduado em Ciências Sociais 
pela USP, onde lecionou Sociologia da Comunicação. Escreve no Observatório da Imprensa e no jornal "O Estado de S.Paulo". Entre outras atividades, foi redator-chefe das revistas "Superinteressante" e "IstoÉ", editor-assistente da "Veja", editor político e apresentador do programa "Perspectiva" da TV Cultura, editor nacional da "Visão" e editor de assuntos especiais da "Realidade". É autor, com Maria Hermínia Tavares de Almeida, de "Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar, in "História da Vida Privada no Brasil", Lilia Moritz Schwarcz (org.), 1998, e do perfil político de Vladimir Herzog (sem título), in "Vlado — Retrato da morte de um homem e de uma época, Paulo Markun (org.), 1985. Recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo Científico, em 1990.


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